sábado, 27 de março de 2010

Dialética do Amor

Parece-me, meus caros amigos, que estamos mergulhando cada vez mais fundo numa crise de estabilidade, que pouco a pouco vai demonstrando o quanto o homem contemporâneo se desqualifica na administração dos valores duradouros. Formamos hoje uma sociedade mundial carente de respostas para situações que nos fogem ao controle e à compreensão. Vivemos assustados com a freqüência de fatos que desafiam nosso equilíbrio social como os inúmeros e variados tipos de crueldade contra crianças em que se destaca uma modalidade das mais insanas que se pode mencionar que é o abuso sexual. Sem medo de exagerar, todos os dias vemos no noticiário, casos de pais, avôs, tios, médicos, professores e infelizmente padres e líderes religiosos também, envolvidos nesses escândalos. É muito complicado para nós encontrar uma explicação para tal fenômeno social.

Sempre se soube que o homem fosse um predador de sua própria espécie, mas chegamos a um ponto em que nada pode ser pior. A verdade é que precisamos o quanto antes voltar nossa atenção para os valores da vida que perdemos e que podem estar na raiz mais agravante dessa falta de sentido do homem que hoje se volta contra os seres mais indefesos para saciar sua sede de posse, de poder e de prazer.

Poderíamos dizer que é falta de religião, mas se fosse isso não aconteceria dentro das igrejas. A verdade é que o imediatismo do mundo tem gerado um ser humano indiferente ao sofrimento do outro, um homem que não se choca mais com nada, individualista e egoísta ao extremo. Para esse homem a vida não passa de um tempo a ser consumido da “melhor” forma possível, e que se encerra na sua existência pessoal. Ele não a contempla no outro e nem a percebe nas coisas mais sensíveis ao seu redor. O homem não ama a vida, por isso desmata, polui, fere e mata tão naturalmente.

O problema do homem é não amar. Quando não se conhece o amor, não se sabe o que é partilha, comunhão, respeito, fraternidade, perdão, cuidado, doação, carinho, proteção. Quando não se ama, se adoece e se perde a paixão, o encanto, a emoção, a sensibilidade. São esses os valores que não tem mais vigência e nem espaço no mundo e muitos estão equivocados ao buscá-los no varejo. Cada um deles é estéril se dissociado dos outros. É o amor que gera cada um deles na oportunidade do viver humano.

Nesse mundo em que tudo é provisório e descartável a religião não pode oferecer Deus como uma oportunidade. Deus não é produto de doutrina e nenhum grupo é a personificação dele. Deus é amor. Ora, ninguém precisa ser necessariamente religioso para conhecer a Deus, basta fazer o que esta na sua própria essência humana que é amar, quem ama cumpre toda a lei diz o Apóstolo Paulo (Rm:13,8-10). Ensine o homem a amar e ele encontrará a Deus.

Deus é a resposta para o homem contemporâneo, afinal, o conceito de absoluto implícito na sua existência, pelo menos do ponto de vista filosófico, o coloca na contramão das tendências da contemporaneidade. Numa cultura imediatista em que os valores duradouros dão lugar ao descartável e em que o indivíduo é mais importante que o todo, Deus será sempre uma contradição e uma agressão para o homem faminto de si mesmo. Não falo de uma ideia de Deus, falo sim de um Deus real, cuja personificação é o amor, pois o homem é adequado ao amor. Falo do Amor, fonte de toda a virtude e todos os bons valores. Falo do amor que só se realiza na veneração da vida como palco de sua realidade, do amor atitude racional, como decisão de sentir e fazer sentir. Deus é um movimento dialético de dar e receber. Ele não é uma ação de caridade simplesmente, mas um ato contínuo, que se realiza, plenifica-se e intensifica-se necessariamente no homem e entre os homens, não passa, não se esgota, não se modifica e não se repete.

Quanto mais desabilitado para o amor, menos humano será o homem, talvez seja essa a razão de não conseguirmos explicar seus atos cada vez mais predatórios.